Uma só alma

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Montagem

No dia 27 de agosto, uma manhã ensolarada de sábado, no Jardim do Museu da Imigração em São Paulo, aconteceu o lançamento do livro Brasil & Itália – Dois países: uma só alma, em edição bilíngue, produto final do 1º Concurso Literário Internacional UmaAlma, cujo tema foi Ecos de outra Pátria.

A organização impecável do livro e do evento teve autoria dos queridos Márcio Martelli e Rosalie Gallo y Sanchez, e agora começam os preparativos para o lançamento na Itália no início de 2023.

É uma grande alegria contar com um texto meu neste livro, que vem acompanhado de um belíssimo álbum de fotos ilustrativas.

Eis o texto que escrevi, sobre o meu pai, e a foto que escolhi:

Meu pai

“Meu pai já não habita o nosso país, mas vive naturalmente conosco e em nós. Nas memórias, nas histórias, nas anedotas, nas frases originais, nos impropérios dirigidos às coisas que não dão certo.

Foi dele que herdei boa parte da parte boa de mim – a preocupação com os outros, a quase indisfarçável capacidade de demonstrar sentimentos, o prazer em conversar com as pessoas, a indignação com os absurdos, o ímpeto por opinar, a postura ética, a determinação, a capacidade de trabalho, o prazer do conhecimento, o gosto pelas questões filosóficas mais sem-resposta, pela psicologia, pela leitura. Foi dele que herdei também umas características de menor relevância – a crença de que os quebrados quase sempre têm conserto, o talento para acomodar muitos objetos em lugares mínimos, o hábito de não usar carteira, o gosto pelas piadas, a preferência pelas camisas brancas e sapatos pretos, a fisionomia.

Meu pai, segundo ele próprio, nunca deu uma gargalhada sequer em toda a sua vida. E, de vez em quando, comentava que talvez esse fosse mesmo um fato estranho.

‘Seu Sydnei’ – também Sydnêi, Nei, Bem, Pai, Soligo e, por último, Nonão – é lembrado com carinho por todos que o conheceram. Pela boa prosa, pelas muitas histórias, pela disposição em ajudar a qualquer hora e por sempre cobrir o cumprimento de mãos com a sua outra mão. Ninguém se esquece.

Feitas as apresentações mais preliminares, passo ao tema que me trouxe a este escrito: a viagem até o país dos antepassados.

Quando chegou o tempo das bodas de ouro, minhas filhas fizeram aos nonos uma consulta sumária para saber se, em vez de festa, o presente poderia ser uma viagem à Itália.

Minha mãe aceitou de pronto, como a todos os convites de lazer, aliás, mas só ela. Não é que ele preferisse festa, por certo que não, mas achava a ideia um erro: segundo dizia com convicção, seria possível conhecer a Itália inteirinha viajando de casa pela internet, com infinitas vantagens nessa escolha, tendo em conta tempo, energia, preocupação e recursos.

O fato é que a insistente teoria simplória da relação custo-benefício não se sustentou nem por 24 horas diante da teima imbatível de quatro mulheres que não deixam nada por menos. E, no fim, fomos, claro.

Descer do avião em solo italiano fez meu pai chorar. Foi essa uma das maiores emoções de sua vida, afirmada muitas vezes, inclusive para se desculpar pela recusa inicial do presente.

Tudo o mais que se seguiu foi uma agitação de sentimentos difícil de descrever.

Primeiro porque ele, que sempre esteve no comando geral das expedições, por força das circunstâncias foi reclassificado: quem dirigia a operação em território estrangeiro era agora a neta proficiente nas línguas e talentosa com a logística das ações internacionais. E, comandante que sempre fora, custou um pouco a se habituar ao rebaixamento, mas acabou por bater continência. Mais ou menos, na verdade…

Já estava tudo organizado quando chegamos na capital do país: apartamento alugado perto do Coliseu, voo para Veneza de onde iríamos até a cidade dos ancestrais, carro alugado para esse trajeto, hotel para pernoite na Praça São Marcos, restaurantes pesquisados. E meu pai incrédulo com essa magia de tudo ser providenciado a distância e depois funcionar mesmo, bem direitinho, lá do outro lado do mar.

Porém, como nada na vida é perfeito, houve algo não previsto que comprometeu essa atmosfera encantada. O que aconteceu então daria um livro de peso, mas terei aqui de resumir a saga.

Há muitos e muitos anos, um parente interessado em genealogia se empenhou em perscrutar nossas origens: Norte da Itália, Vêneto, Treviso, uma única família italiana Soligo no mundo, todos saídos do mesmo lugar. Meio caminho andado, como se diz… Descobrimos sem esforço duas cidades da região que levam o nosso nome – Pieve di Soligo e Farra di Soligo – e lá fomos nós, com a certeza inequívoca de encontrar os antepassados.

Ocorre que existe por lá um tal Rio Soligo que parece ter inspirado muitos nomes, talvez das cidades também, não chegamos a confirmar. Fato é que não havia comunas formadas por nossa família, tal como supôs nossa imaginação criativa.

Em Pieve e Farra, perguntamos por nossos parentes e ninguém sabia onde estavam! Havia laticínios, vinícolas e produtos com o nosso nome, mas familiares, que é bom, não. Meu pai era só desapontamento e aflição.

Na primeira das duas cidades, escolhida ao acaso no encruzilhar da estrada, pergunta vai, pergunta vem, minha filha e eu tivemos palpite de procurar evidências na cantina logo ali. Deixamos meus pais, por um breve tempo, com a recomendação expressa de que ficassem no carro, pois seria mais rápido irmos a pé. Quando voltamos, sem qualquer notícia útil, minha mãe estava só… “Noninha, cadê o Nonão?!!!”. Bem, meu pai resolveu se informar por conta própria, em idioma incompreensível, e ao vê-lo naquele estado ansioso uma mulher que por lá passava prometeu levá-lo até a casa de uns brasileiros para poderem se entender. Sem qualquer hesitação, ele acompanhou a desconhecida e sumiram de carro na curva da rua, deixando minha mãe a nos esperar. Sim! Houve entre nós um pânico mal disfarçado, que por sorte não chegou a durar, pois como as pessoas trabalham em dias de semana ninguém foi encontrado e a boa senhora trouxe de volta o meu pai. São, salvo e frustrado.

Seguimos viagem para a outra cidade e, outra vez, os esforços foram em vão. Dois encontros tiveram utilidade, entretanto: com umas garrafas de vinho “Vidotto” na hora de almoçar (indício de que o outro lado da nossa família também teria vindo daquelas bandas) e com o funcionário de uma livraria que nos fez saber que estávamos procurando parentes no lugar errado. Nossa família morava em outra cidade cujo nome não era Soligo, quem diria…

A essa altura meu pai era só desapontamento e, apesar de nossas tentativas de animá-lo alegremente, dizendo que u-hu logo chegaria enfim a desejada hora, ele perdeu parte do entusiasmo e desistiu de encontrar antepassados, ou porque já era tarde ou – talvez principalmente – para evitar maior aborrecimento.

Com o argumento de aproveitar a viagem, entramos em outra cidade aonde a estrada ao léu nos levou, e, por sorte, lá encontramos, ao menos, um ilustre nome Soligo no monumento de heróis da Segunda Guerra. Tiramos uma porção de retratos e caminhamos pelas calçadas olhando as casas, os quintais, as janelas, as poucas pessoas no fim da tarde.

E aí voltamos para Veneza para passar uma noite memorável na cidade do amor. Foi assim.”

Foto enviada por Rosaura Soligo - para o Texto PAI

Foto de Família, 1967

=> Interessados em obter o livro podem solicitá-lo em Livraria In House

Atividades formativas

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Em breve

Charlas - divulgação

Na manhã do dia 17 de setembro, participarei de Una Charla, série de conversas promovidas pelo Reescritas destinadas a profissionais da educação interessados em conhecer pesquisas na área e experiências de pesquisadores.

O propósito, nesse próximo encontro, é conversar sobre a abordagem metodológica das minhas pesquisas de mestrado e doutorado, para discutir o tipo de perspectiva narrativa adotada nos dois casos. Muitos pesquisadores desenvolvem metodologias narrativas já faz tempo, com diferentes enfoques, mas no meu trabalho criei uma variação que pressupõe escrever o registro da pesquisa (a dissertação e a tese) no percurso, e não somente depois de finalizada a obtenção de dados – o registro representa, inclusive, uma fonte importante de dados também. A metodologia – que chamei de Pesquisa Narrativa em Três Dimensões – articula intencionalmente as fontes narrativas de dados, um modo narrativo de produzir conhecimento e o registro narrativo da pesquisa. Essa escolha metodológica já existia no trabalho de mestrado, porém de forma intuitiva, e foi sistematizada na tese. Na dissertação, eu havia abordado como se dava o movimento de “pesquisa da pesquisa na pesquisa”, mas somente na tese esse processo foi teorizado suficientemente de modo a se constituir em uma contribuição sistematizada para outros pesquisadores.
Nos dois trabalhos, há um empenho especial em evidenciar a abordagem metodológica adotada e a importância de buscar a coerência estética conteúdo-forma-registro. Tanto a dissertação como a tese foram escritas em forma de cartas, e não de capítulos convencionais.

Para se inscrever gratuitamente, clique aqui: Una Charla com Rosaura Soligo

Aconteceu

No último sábado, 20/08, participei de um encontro online que aconteceu no Fórum de Práticas Pedagógicas do Grupo OEP (Oswald de Andrade, Elvira Brandão e Piaget), uma ação realizada para integrar os educadores das três escolas, intensificar as ações colaborativas e formar as equipes para os desafios contemporâneos. Evento importante para fortalecer a parceria das escolas.

Card

Jorge Larrosa

Em 12/09, às 15 horas, acontecerá o Webinário ‘Palavramundo: Contribuições da Literatura para a Alfabetização e o Letramento’

O evento ‘promete’, as inscrições são gratuitas, já estão abertas e podem ser acessadas no link acima.

Evento Larrosa card

Narrativas de formação

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Angela:

“Eu me dedico à Educação há 20 anos, destes, três na Coordenação Pedagógica em uma EMEF com mil estudantes e diversos problemas e dificuldades agravadas com o período pandêmico.

Resolvi fazer esse curso porque em muitos momentos percebi que, embora me esforçasse, não conseguia atingir meus objetivos nos horários coletivos de formação e, consequentemente, não conseguia provocar reflexões e mudanças nas práticas dos professores. Tinha a sensação de que não sabia nada, por mais que mergulhasse em leituras e mais leituras.

O curso foi muito enriquecedor e, com os encontros, pude me ver como Coordenadora Pedagógica, assisti um filme de mim mesma e percebi inúmeras coisas que poderia melhorar na minha prática.

… Por exemplo, realizei com professores do 6º ano algumas situações-problema de simulação, parecidas com as que foram abordadas nos encontros, e a experiência foi muito boa. Discutimos bastante e conseguimos pensar melhor na realidade atual; foi possível perceber a necessidade de planejamentos mais adequados e flexíveis, partindo da necessidade dos estudantes. A simulação é uma proposta simples, porém com grande poder de reflexão.

… Construímos na escola espaços de fala e conscientização para melhorar as relações, que ficaram prejudicadas com a pandemia. Dessa forma, percebemos os estudantes mais envolvidos, críticos e participativos e os professores ainda mais empenhados. Todo esse movimento deixou a formação mais dinâmica.”

Simone:

“Um movimento que me propus a fazer nesse período do curso foi uma reflexão sobre como a formação produz efeitos em minha prática, como participar de uma ação como esta – que mexe, aprofunda, consolida ou até mesmo altera o meu modo de pensar Educação, mesmo após 27 anos de magistério – gera uma atitude nascente e que se renova.

As propostas de elaboração das frases emblemáticas foram uma estratégia importante no curso, para que eu pudesse me envolver e fazer algumas antecipações de como seriam os encontros e me engajar nas discussões que estavam sendo propostas.

E por quê? Porque estou em um ambiente profissional onde muitas vezes elencamos o que é mais desafiador para nós e me parece que já determinamos alguns desafios comuns. Porém, estar em um grupo com pessoas de diferentes instituições e diferentes redes de ensino e ouvir que temos desafios comuns, mas que também temos desafios outros, me conduziu a outro ponto de reflexão. Algumas frases e considerações dos colegas já estavam adormecidas e até mesmo esquecidas em meus próprios processos.

Os trabalhos em grupo em salas simultâneas, outra estratégia utilizada, foram muito desafiadores para mim, mas destaco que os direcionamentos dados me tranquilizaram. Uma das minhas principais dificuldades ao estar em um grupo quando não há um direcionamento explícito é ver as conversas que escapam muito do foco – sei que fazem parte, mas, considerando a necessidade de realizar uma proposta em um determinado tempo, acabam atrapalhando. Todas as propostas tinham orientações que contribuíram, e foi realmente bom ter uma escuta para outras realidades, até mesmo para compreender o que tenho discutido com os coordenadores e professores que acompanho quando dizem sobre suas experiências em outras redes.

… Refletir sobre a própria prática é fundamental para contribuir com as transformações pelas quais a escola precisa passar, e penso que fomentar essa reflexão é papel de um/a formador/a que compreende o seu fazer. Fui instigada a refletir sobre a minha prática e preciso também instigar o mesmo nas formações que promovo. Favorecer o trabalho colaborativo é tarefa que requer muito cuidado e esforço de nossa parte, num incansável processo de olhar e olhar de novo, ir e vir, registrar. No espaço desse curso, foram socializados alguns procedimentos e atitudes fundamentais, e possíveis de realizar, que contribuíram significativamente com minhas reflexões e ações.”

Susana:

“Nesse curso me propus a observar mais detalhadamente as questões metodológicas. Você organiza os encontros de forma que todos construam as melhores competências de formador/a, Rosaura. Se a sua questão como formadora sempre foi “Qual a melhor forma de fazer o trabalho para produzir a maior aprendizagem possível no outro”, podemos afirmar que você vem obtendo êxito, pois consegue realizar com maestria encontros formativos de modo a atingir esse propósito.

… Em suas propostas metodológicas, destaco as atitudes de direcionar o percurso do outro, de valorizar cada fala, de enviar um e-mail detalhado com cuidado e zelo, de explicitar claramente para que todos entendam, demonstrando em atos que faz um planejamento cuidadoso para cada encontro, ou seja, seus atos confirmam que você acredita – como diz Freire – que ‘ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo’.

… Gosto muito do quanto você considera/valoriza o conhecimento prévio do grupo e como valoriza e usa de conhecimentos e experiências das pessoas para tecer os encontros. Você está atenta a todo talento ao seu redor, elogia e fala ‘isso que você está dizendo é importante’, ‘achei o texto da xxx muito bom e vou ler um trecho’, ‘achei importante trazer o depoimento da xxx para vocês verem o quanto é potente’, ou seja, todos vão tendo possibilidade de vivenciar experiências de êxito, porque você potencializa talentos e conhecimentos do grupo, o que faz com que as pessoas tenham vontade de se empenhar cada vez mais nas atividades propostas.

… Analisei, ainda, as estratégias metodológicas que você usa quando:

– Alguns monopolizam a discussão e você interfere com muita educação e firmeza.
– Há interpretações equivocadas de uma pessoa ou outra em relação a certas questões e você esclarece pacientemente.
– Estabelece vínculo real com todos.
– Dá devolutivas que, ao mesmo tempo, incentivam e apontam as necessidades de refazer certas propostas.
– Muitas vezes, o silêncio é uma resposta, pois o outro só precisa desabafar.”

Grace:

“Dormi professora, acordei coordenadora… E agora? – disse a Rosaura no primeiro encontro de formação de que participei alguns anos atrás. Muitos medos e inseguranças me atravessavam naquele momento, porém hoje percebo o quanto as suas contribuições, e dos grupos, impactaram e continuam impactando em meu crescimento profissional, despertando em mim cada vez mais o desejo de querer acertar e fazer o meu melhor pelo outro. Nessa troca de olhares e escuta, eu me constituo no grupo e o grupo se constitui em mim.

Cada experiência compartilhada em nossos encontros me deslocou e conectou a novos lugares!

… O momento mais desafiador para mim foi quando vivenciei a função de observar e anotar a discussão do grupo em relação à simulação, pois não queria atuar como ‘fiscal’. Essa experiência me fez compreender que, com atitudes éticas de respeito ao outro, as discussões dão lugar às necessárias divergências de opiniões e, assim, crescemos enquanto grupo/pessoas.

… Nossos encontros permitiram intensas construções de significados para o meu fazer de coordenadora, com muitos momentos de deslocamento, conflitos internos e ressignificação da minha prática. Muito falamos do fazer do professor, mas precisamos também falar sobre o fazer do coordenador, da mesma forma que falamos muito sobre a aprendizagem, mas pouco falamos sobre a ensinagem.

Afeto que AFETA! Posso dizer que foi essa a maior sensação que senti em nossos encontros.”

Notas

-> Esses textos são relatos parciais de avaliação do Curso de Aprofundamento Teórico-Metodológico O desejo, a necessidade e a pergunta como pontos de partida da formação, que aconteceu no primeiro semestre de 2022, com coordenação de Rosaura Soligo.
Foram postados no grupo Você sabia?! https://www.facebook.com/groups/279888086615352
É este o post: https://www.facebook.com/groups/279888086615352/permalink/735020727768750/

-> Há um minicurso que acontecerá em quatro encontros no mês agosto e está com inscrições abertas, pois conta ainda com algumas vagas. A metodologia é a mesma e pressupõe a necessidade e a pergunta como pontos de partida da formação.
Aqui estão todas as informações: Informações e Formulário de Inscrição

Curso para coordenadores

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- Foto para card - Inscrições prorrogadas atualizar blog

Desafios Atuais da Coordenação Pedagógica 2022

Esse é um minicurso de atualização com inscrições facilitadas somente até 18 de julho, quando termina o prazo para se inscrever com desconto, mas seguem ainda as inscrições até terminarem as vagas.

Os interessados em participar devem acessar este link sem demora, pois há poucas vagas: Formulário de Inscrição

As informações principais estão no formulário e, a seguir, as razões que levaram à abertura de inscrições neste momento.

Em 2018 e 2019 aconteceram dez turmas do curso Desafios Atuais da Coordenação Pedagógica, envolvendo mais de 450 coordenadores pedagógicos de várias cidades e regiões. Depois, em razão da pandemia, os cursos destinados a coordenadores pedagógicos passaram a acontecer em parceria com as secretarias de educação, na modalidade online, e atualmente, em 2022, envolvem cerca de 350 profissionais de diferentes municípios do país. Por esse motivo, não estavam previstas novas turmas neste ano para abordar os desafios da coordenação pedagógica, mas como muitos colegas fizeram essa solicitação foi então aberta esta turma para agosto de 2022.

Minhas escolas

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Escola da Taquara (2) - Copia(foto do que foi a minha primeira escola, em Ururaí)

Todo professor mora em uma pessoa, todo aluno mora também.

N
Naquele dia ouvi histórias de duas professoras queridas que em poucas horas me fizeram visitar, uma a uma, todas as escolas que me habitam. As primeiras como aluna, as outras como professora. Comecei lá por Ururaí, a vila em que morei na infância e onde estudei com meninos e meninas da roça, em turma multisseriada até. Depois, na cidade meio grande, em uma classe só de meninas, fato inexplicável que até hoje não entendi. Daí foi a garagem da Dona Rosa, professora de Admissão, e em seguida o Barão. Mais adiante, muitas cidades além, no rumo do noroeste, foi a escola mais escola em minha vida, porque tinha o que fazer além da sala de aula, coisa melhor do mundo. Então passei pelo cursinho lá em Ribeirão – ah! Charles… ah! Praça XXV… ah!… – e por uma instituição estranha do outro lado da mesma rua. E a faculdade de psicologia enfim, tempo das paixões pulsantes e educativas, e depois a de pedagogia, morna, insossa, esquecível. Aí a primeira escola como professora, na ponta da periferia da Vila. A outra era mais adiante, onde pela primeira vez ensinei a ler, se é mesmo que ensinei. Depois a outra, já na capital, na extrema Zona Leste, lá para os lados da divisa. E a seguinte, numa avenida central, onde conheci a humilhação disfarçada de conselho bom: fui tratada como professorinha iludida – ô coisa ruim de aguentar. Por fim, um lugar de plena glória: virei celebridade instantânea, convidada a dar depoimento em eventos e entrevista para a tevê: de professorinha inocente para docente senhorinha de si em menos de meio ano – ô vingança boa caída no colo, sem sequer premeditar! Como era de se esperar, a visita terminou na querida e derradeira, uma deliciosa escola inventada, do jeito que tem de ser.

Foram quinze escolas somente, cada qual com uma lição ao menos.

Pela ordem cronológica, para o bem ou para o mal, são estes os ensinamentos.

Receber lanchinho da nona bisa pela cerca, na hora do recreio, aos seis anos de idade, simplesmente não tem preço. Apartar meninos de meninas é uma providência esquisita que só faz aproximá-los. Copiar à exaustão redações da professora, para reproduzir de memória talvez algum belo dia, configura crime hediondo e inafiançável contra a linguagem. Uma grande escola pode ser a janela aberta para algum futuro possível. A sala de aula que nos toca, que nos forma e nos transforma quase sempre se situa da porta para bem fora. Há professores atores, que atuam em grandes palcos, para esperançosas plateias pré-vestibulares. E há lugares que não são escolas nem palcos, são fábricas tão somente. A melhor de todas as escolas é a que nos enche de encantos e paixões inesquecíveis. E a pior, com certeza, é a que não consegue provocar nenhum acontecimento digno de nota. Impossível esquecer a primeira aula que a gente dá. Sim, um aluno pode nos mandar para aquele lugar, levar um esbregue sem precedente e depois de algum tempo ficar tudo muito bem. Só as crianças podem nos ensinar quem são e, às vezes, também quem somos. Alguns alunos nos arrastam para uma luta feroz a favor de um destino melhor para eles. Escolas inventadas e encantadas existem.

A maior de todas as lições?

Ah! Uma de grande simplicidade: todo professor mora dentro de uma pessoa, todo aluno mora também e só esta consciência amorosa pode salvar a escola. É o que a vida me ensinou.

Rosaura Soligo, 2015

Curso em agosto – consulta

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Foto para card ESTA

Consulta 

Em 2018 e 2019, coordenei um minicurso chamado Desafios Atuais da Coordenação Pedagógica que aconteceu em dez grupos, envolvendo mais de 450 coordenadores pedagógicos de várias cidades e regiões.

Depois, em razão da pandemia, os cursos destinados a coordenadores pedagógicos passaram a acontecer em parceria com as secretarias de educação, na modalidade online, e atualmente, em 2022, envolvem cerca de 350 profissionais de diferentes municípios do país.

Por essa razão, não estavam previstas novas turmas neste ano para abordar os desafios da coordenação pedagógica, mas como muitos colegas têm feito essa solicitação foi aberta esta consulta.

Proposta

Minicurso com 4 encontros online de 2 horas mais 7 horas de Estudo e Trabalho Pessoal – nas quartas-feiras de agosto (03-08 | 10-08 | 17-08 | 24-08), das 19:30 às 21:30, com certificado de 15 horas.

O objetivo é discutir os principais problemas e dificuldades dos coordenadores neste ano, a partir de um levantamento realizado no formulário de pré-inscrição, compartilhar propostas bem sucedidas de atuação na escola e aprofundar alguns temas relacionados aos desafios da coordenação pedagógica.

Atenção

Terá direito a certificado somente quem participar integralmente dos encontros online e realizar todas as atividades de Estudo e Trabalho Pessoal.

A maioria dos textos para estudo será enviada em julho, antes do primeiro encontro.

Em razão da natureza do trabalho, não haverá a modalidade assíncrona.

O custo é 400 reais, com desconto de 10% para inscrições à vista, de 12 a 15 de julho.

Não haverá desconto para grupos.

Os interessados devem preencher o Formulário de Inscrição

As dúvidas que eventualmente surgirem não serão respondidas pelas redes sociais, somente por este e-mail: conversaspedagogicas@gmail.com

Nós já sabemos. E não é de hoje.

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O fato é que a educação é hoje um lugar contraditório onde convivem – como diz António Nóvoa – ricos discursos, riquíssimos, e práticas pobres.

Não há nada propriamente desconhecido em relação ao melhor a fazer na escola.

Nós sabemos que qualquer escola pode ser ou se tornar boa se houver investimento real nas condições que caracterizam as melhores escolas do mundo: construção progressiva de um projeto educativo explícito e compartilhado, formação continuada para todos os profissionais, planejamento em colaboração, formas ágeis de encontrar respostas para as necessidades e dar encaminhamento para os combinados, apoio efetivo das autoridades educativas e uma equipe de professores que se mantém, mesmo que parcialmente.

Nós sabemos que uma equipe de gestão deve ter um trabalho articulado em que todos se apóiam, e a ação de um potencializa a do outro, o que fortalece o sentido de grupo, empodera os profissionais para enfrentar os desafios e agiliza as conquistas.

Nós sabemos que gestão democrática não é uma palavra de ordem para ficar escondida nos documentos, mas sim a forma mais pertinente e eficaz para fazer acontecer a escola.

Nós sabemos que a escola é parte constitutiva da comunidade e como tal deve atuar.

Nós sabemos que projeto educativo não é um documento burocrático bem feito guardado na gaveta, mas sim um processo complexo com três dimensões – o planejado, o efetivamente realizado e o registrado no documento – que precisam ter a máxima aproximação possível.

Nós sabemos que o trabalho coletivo é imprescindível na escola – há mais de um século já dizia Anton Makarenko que não se pode educar um coletivo de crianças ou jovens sem se constituir como um coletivo também.

Nós sabemos que os métodos transmissivos são ineficazes e entediantes e que as metodologias ativas são as mais pertinentes, tanto para alunos quanto para profissionais, pois os colocam no centro do processo e os convidam a protagonizar a cena.

Nós sabemos que o engajamento dos alunos (e também dos profissionais) depende de eles verem sentido nas propostas, terem experiências de êxito e se sentirem capazes.

Nós sabemos que os projetos são propostas privilegiadas para provocar engajamento e contribuir para a postura de estudante.

Nós sabemos que não se aprende a ler e escrever treinando sons descontextualizados, mesmo que o Ministério da Educação afirme que métodos de treinamento de sons são baseados em evidências científicas. Isso não tem fundamento algum, nós sabemos.

Nós sabemos que as evidências científicas indicam, já há quase quarenta anos, que as crianças consideram que não é possível ler escritos de poucas letras – a maioria delas acredita que é preciso haver pelo menos três letras para que possam ser lidos – e, portanto, não tem nenhum sentido continuar tentando ensiná-las pelo A-E-I-O-U e pelo treino de sílabas ou fonemas, mesmo que o MEC afirme que esse equívoco é científico. (!!!)

Nós sabemos que é necessário garantir o acesso à literatura na escola, e que isso precisa começar com a leitura diária de bons textos para as crianças desde a Educação Infantil, ainda mais se elas não tiverem acesso, em casa, a livros e a situações cotidianas de leitura.

Nós sabemos que situações-problema não são exercícios de treino dos conteúdos ensinados, mas sim propostas para fazer pensar, para instigar o desenvolvimento da inteligência, para convidar ao jogo intelectual produzido pelo desafio.

Nós sabemos que as atividades investigativas são as melhores, não só para o trabalho com conteúdos das ciências humanas e da natureza, mas com conteúdos de todos os componentes curriculares.

Nós sabemos que o currículo escolar deve estar a serviço da formação integral dos alunos e se ajustar às suas reais necessidades e possibilidades de aprendizagem – o currículo não é apenas a reunião de conteúdos clássicos de cada componente curricular.

Nós sabemos que conteúdo curricular é tudo o que se ensina na escola, mesmo que de forma não intencional.

Nós sabemos que a grande inovação é ensinar a todos e que isso ainda não foi experimentado.

Nós sabemos que as escolas e os professores são essenciais para o presente e para o futuro da educação – como sempre nos lembra o Nóvoa – e, por essas e por outras, não faz N-E-N-H-U-M sentido as propostas irresponsáveis de homeschooling, de ensino domiciliar.

Nós sabemos isso tudo e muito mais. Já não é de hoje.

As lições sabemos de cor. Só nos resta aprender.

O que nos falta, afinal, para aprender?

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O currículo escolar é uma construção coletiva

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Conferência de Abertura da Semana de Educação de São Bernardo do Campo

A construção da proposta curricular:
das orientações nacionais
ao trabalho pedagógico em cada escola

 

Slides da Conferência
Rosaura Soligo – Conferência de Abertura

Material complementar: Slides de Apresentação na Conferência de 2021

Foto Abertura

 

De 30 de maio a 02 de junho, acontece a Semana de Educação de São Bernardo do Campo, cujo tema central é Currículo, em razão do processo de atualização da Proposta Curricular da Rede Municipal que está acontecendo neste ano, com a colaboração de uma grande equipe.

A Semana, destinada especialmente aos profissionais da educação de São Bernardo, é aberta a todos que desejarem acompanhar pelo YouTube. Os vídeos serão postados diariamente no site, na página da programação, e poderão ser acessados por quem não puder assistir em tempo real.

Conheça o grupo de palestrantes, composto dos assessores responsáveis pela atualização da Proposta Curricular e por convidados muito especiaisPalestrantes

Confira todas as informações no Site da Semana de Educação